Quanto gás consome cada aparelho

O consumo de gás natural de uma casa é sempre a potência de cada aparelho multiplicada pelas horas que ele trabalha: 1 kW durante uma hora consome 1 kWh, e 1 kWh a 11,2 kWh/m³ são 0,089 m³ de gás. É por essa conta, e não por uma média nacional, que se traduz um aparelho num número da fatura. A chapa de características diz kW, o contador conta m³/h e a fatura cobra kWh, e as três unidades descrevem a mesma coisa.

Diagrama: Quanto gás consome cada aparelho

A conta que traduz qualquer aparelho a gás natural

A conta que traduz qualquer aparelho tem um só passo: m³/h = kW ÷ 11,2. A potência da chapa é energia por hora, o fator de conversão é energia por metro cúbico, e a divisão devolve metros cúbicos por hora, que é exatamente a velocidade a que o contador roda quando o aparelho está a trabalhar ao máximo.

Potência de exemploEnergia por horaGás por hora a 11,2 kWh/m³
5 kW5 kWh0,446 m³/h
10 kW10 kWh0,893 m³/h
15 kW15 kWh1,339 m³/h
19 kW19 kWh1,696 m³/h
24 kW24 kWh2,143 m³/h
30 kW30 kWh2,679 m³/h

As potências desta tabela são valores de exemplo, escolhidos para cobrir a gama doméstica, e não medições de nenhum equipamento concreto. Dois aparelhos correntes assentam nela: um esquentador de 11 litros por minuto ronda os 19 kW, e uma caldeira mural corrente ronda os 24 kW, ambos como exemplo e não como valor publicado. Quem quiser a escala completa em litros por minuto encontra-a em Esquentador a gás natural, e o dimensionamento em kW em Dimensionar uma caldeira a gás natural.

De m³/h a consumo mensal e anual

De m³/h a consumo mensal chega-se multiplicando pelas horas efetivas de funcionamento, que é onde a maioria das estimativas falha. Um aparelho de 24 kW que trabalhe uma hora por dia durante 30 dias consome 720 kWh, ou 64,3 m³. O mesmo aparelho a três horas por dia consome 2 160 kWh, ou 192,9 m³, três vezes mais, sem que a chapa tenha mudado.

Horas por dia, 30 diasAparelho de 10 kWAparelho de 24 kW
0,5 h150 kWh, 13,4 m³360 kWh, 32,1 m³
1 h300 kWh, 26,8 m³720 kWh, 64,3 m³
2 h600 kWh, 53,6 m³1 440 kWh, 128,6 m³
3 h900 kWh, 80,4 m³2 160 kWh, 192,9 m³

Estes valores são aritmética sobre potências de exemplo, não consumos medidos. Servem para uma coisa concreta: perceber se uma fatura alta vem de mais horas de utilização, de um aparelho mais potente ou de um erro de leitura.

Quanto consome uma família, por mês e por ano

Quanto consome uma família em gás natural depende de quais destes usos existem em casa, e não do número de pessoas por si só. Águas quentes sanitárias funcionam o ano inteiro e distribuem o consumo por 12 meses; o aquecimento concentra-o em 4 ou cinco meses; a confeção de alimentos pesa pouco em qualquer dos casos. Duas casas com o mesmo número de habitantes e usos diferentes consomem valores que não se comparam.

O que existe publicado, e é imposto, é o escalão de consumo. É atribuído a partir dos m³ do ano anterior e atualizado anualmente, o que faz dele o enquadramento honesto para a pergunta do consumo médio.

EscalãoConsumo anualEquivalente mensal médio
10 a 220 m³/anoAté cerca de 18 m³/mês
2221 a 500 m³/anoCerca de 18 a 42 m³/mês
3501 a 1 000 m³/anoCerca de 42 a 83 m³/mês
41 001 a 10 000 m³/anoAcima de 83 m³/mês

O exemplo usado em todo este manual, 84 m³ num ciclo, situa-se no topo do escalão 3, e converte-se em 84 × 11,2 = 940,8 kWh. A 0,0522 €/kWh, que é um preço de exemplo e não uma tarifa publicada, essa energia daria cerca de 49 €, antes de termos fixos, impostos e IVA. Os preços reais estão tratados em Quanto custa o gás natural em Portugal.

O erro mais comum ao ler a chapa de características

O erro mais comum é tratar os kW da chapa como consumo permanente. Uma caldeira de 24 kW não consome 24 kW ao longo do dia: modula a chama, arranca e para conforme o termóstato, e passa a maior parte das horas parada ou a uma fração da potência nominal. Multiplicar 24 kW por 24 horas dá 576 kWh por dia, um valor que nenhuma habitação regista, e é assim que nascem estimativas de consumo 10 vezes acima do real.

Há uma segunda armadilha na mesma chapa. Muitos equipamentos indicam duas potências, a de entrada, que é o gás queimado, e a útil, que é o calor entregue à água. A que o contador vê é a de entrada, e o gás por hora calculado a partir da potência útil fica sempre abaixo do consumo verdadeiro, na proporção do rendimento do aparelho.

O que estes números não dizem

Estes números não dizem quatro coisas, e é honesto nomeá-las. O fator de conversão não é 11,2 fixo: o poder calorífico superior do gás entregue anda entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n) e o fator de correção de volume é 0,947944 ou 0,961288 conforme o distribuidor, pelo que o fator real cai entre 11,19 e 11,54. O rendimento de cada aparelho varia com o modelo, a idade e a regulação. As horas de funcionamento variam com o clima e com o isolamento. E o preço final varia com o contrato, entre os 14 comercializadores que a ERSE contou com ofertas de gás no mercado livre no segundo trimestre de 2026.

A rede que entrega esse gás é a mesma para todos. A Rede Nacional de Transporte de Gás Natural tem 1 375 km, de Sines a Valença do Minho e de Campo Maior até perto da Figueira da Foz, e as redes de distribuição derivam dela até ao contador de cada fração. Em 2024, 98% do abastecimento do sistema português entrou pelo terminal de GNL de Sines e 2% pela interligação com Espanha.

A unidade em que esta página termina é o metro cúbico por hora. É a única grandeza que liga a chapa do aparelho ao contador, e a que permite verificar, com um relógio na mão, se um consumo faz sentido: fecham-se todos os aparelhos exceto um, cronometra-se, e compara-se o avanço do contador com o valor da tabela.

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