Gás natural ao volante
O gás natural usado como combustível de automóvel é gás natural comprimido, GNC, também designado por GNV quando se fala do veículo, e vende-se ao quilograma e não ao litro, armazenado a cerca de 200 bar num depósito de aço ou de compósito. É a mesma molécula que chega pela conduta a uma cozinha, apenas comprimida.
GNC, GNV e GNL: três siglas, dois estados
As três siglas descrevem o mesmo gás natural em situações diferentes, e só duas correspondem a estados físicos distintos. O GNC é gás comprimido, continua gasoso e vive num depósito de alta pressão, o que o torna a forma habitual em ligeiros, autocarros urbanos e frotas de recolha de resíduos. O GNV é a mesma coisa vista do lado do veículo, gás natural veicular, e não é outro produto. O GNL é o gás liquefeito a cerca de 162 graus negativos, com página própria neste manual, e no transporte rodoviário aparece sobretudo em pesados de longo curso, onde a autonomia justifica um depósito criogénico.
A abreviatura GN, sem mais nada, designa o gás natural genérico, o mesmo que a página sobre o que é o gás natural define e que a página sobre como funciona o gás canalizado entrega em casa. Uma diferença que convém fixar desde já: o GPL auto, que abastece muitos veículos em Portugal, não é gás natural. É propano ou butano, outra molécula, com outro depósito e outra bomba.
Porque se vende ao quilograma e não ao litro
Vende-se ao quilograma porque um gás comprimido não tem volume estável. Um litro de gás a 200 bar contém muito mais massa do que um litro do mesmo gás à pressão atmosférica, e o volume ainda varia com a temperatura do depósito no momento do enchimento. A massa não varia com nenhuma dessas condições, pelo que é a única base honesta para cobrar. Daí a coluna do posto marcar quilogramas onde a bomba de gasolina marca litros.
É também daí que vem o erro que esta página existe para desfazer: comparar o preço por quilograma no posto de GNC com o preço por litro na bomba de gasolina. São grandezas diferentes e a comparação direta não significa nada. A comparação que se sustenta é por energia. Com a densidade aproximada de 0,78 kg/m³(n) do gás natural, 1 kg corresponde a cerca de 1,3 m³(n), e ao poder calorífico superior mediano de 11,9 kWh/m³(n) isso dá da ordem de 15 kWh por quilograma. Os dois valores de partida são aproximados e variam com o lote entregue, pelo que este resultado serve para dar ordem de grandeza e nunca para faturar.
Gás natural e gasolina, o que se compara e o que não se compara
| Combustível | Estado no depósito | Unidade de venda | Referência energética |
|---|---|---|---|
| GNC | Gasoso, cerca de 200 bar | Quilogramas | Cerca de 15 kWh/kg, valor aproximado |
| GNL | Líquido, cerca de 162 graus negativos | Quilogramas | O mesmo metano, noutro estado |
| GPL auto | Líquido sob pressão moderada | Litros ou quilogramas | PCI de 12,93 kWh/kg no propano |
| Gasolina | Líquido | Litros | Não publicado nesta página |
A última linha da tabela é deliberada. Esta página não imprime uma equivalência entre gás natural e gasolina porque isso exigiria um valor de energia por litro de gasolina e um preço, e nenhum dos dois foi verificado aqui. O método, esse, é sempre o mesmo: dividir o preço pago pela energia adquirida, chegar a euros por kWh em cada combustível e só então comparar, contando ainda com o rendimento do motor e com o custo da conversão do veículo, que é um investimento inicial e não um custo por quilómetro.
Como está a rede de abastecimento em Portugal
A rede de abastecimento de GNC em Portugal é estreita e desigual, e não se confunde com a rede de gás natural. A Rede Nacional de Transporte de Gás Natural tem 1 375 km e serve indústria, distribuição urbana e centrais, não veículos. Os postos de enchimento de GNC são outra infraestrutura, historicamente ligada a operadores de transporte público e a frotas municipais, com abertura ao público variável de posto para posto.
Esta página não publica um número de postos nem um mapa, porque não foi verificada nenhuma contagem publicada e um número inventado sobre disponibilidade de combustível é pior do que a ausência dele. O que se pode dizer com segurança é o enquadramento: em 2024, segundo a REN, 98% do abastecimento de gás natural ao sistema português entrou pelo terminal de Sines e 2% pela interligação com Espanha, e é dessa mesma origem que vem o gás que qualquer posto de GNC comprime.
Depósito, inspeção e cheiro a gás no carro
O depósito de um veículo a GNC é um recipiente sob pressão e tem regras próprias, que não são as da casa. A inspeção periódica de instalações de gás em edifícios, imposta pelo Decreto-Lei n.º 97/2017 alterado pela Lei n.º 59/2018, com a primeira aos 10 anos numa habitação e repetição de 5 em 5 anos, aplica-se a instalações prediais e não ao depósito de um automóvel. As garrafas de veículo obedecem ao regime de requalificação periódica dos recipientes sob pressão e ao regime de inspeção automóvel, com prazo marcado na própria garrafa, e uma garrafa fora de prazo invalida o abastecimento.
Sobre cheiro a gás no carro, a maioria dos casos não é gás natural. Num veículo a gasolina ou a gasóleo, o odor vem tipicamente de vapores de combustível, de gases de escape que entram na cabina ou do circuito de ar condicionado, e nenhum deles cheira a ovo podre. O gás natural e o GPL são odorizados com compostos de enxofre precisamente para cheirarem assim, pelo que um odor a ovo podre num veículo a gás é motivo para parar, desligar a ignição, não fumar, ventilar com as portas abertas e levar o carro a oficina. Recorde-se que o metano é inflamável no ar entre cerca de 4,4% e 16,4% em volume. Ao volante, a unidade que conta continua a ser o quilograma: é assim que o GNC é medido, é assim que é cobrado, e é a partir daí que qualquer comparação com outro combustível tem de começar.