Gás natural liquefeito
Gás natural liquefeito, GNL, é o mesmo gás natural arrefecido até cerca de 162 graus negativos, temperatura à qual passa ao estado líquido e ocupa, segundo a figura corrente da indústria, cerca de 600 vezes menos volume, o que permite transportá-lo por navio onde não existe conduta.
A molécula não muda. O que muda é o estado, e com ele a densidade, o modo de transporte e as unidades em que o produto é comprado e vendido.
Para que serve liquefazer o gás
Liquefazer o gás serve para o poder mover sem tubo. Uma conduta atravessa um continente mas não atravessa um oceano a custo aceitável, e um gás à pressão atmosférica é volumoso demais para caber num porão. Arrefecido abaixo do seu ponto de ebulição, o metano condensa e passa a caber em tanques criogénicos de um navio metaneiro, que o entrega a milhares de quilómetros da jazida.
O líquido é mantido frio pelo próprio processo: uma fração evapora continuamente e essa evaporação retira calor ao resto, mecanismo conhecido por autorrefrigeração. O gás evaporado, o boil-off, é reaproveitado, tipicamente como combustível do navio. É a razão pela qual um carregamento de GNL não é armazenado indefinidamente sem perdas, e pela qual a cadeia é planeada em viagens e não em anos.
O que significam 600 vezes, em números
As 600 vezes significam que 1 m³ de GNL devolve à volta de 600 m³ de gás depois de regaseificado. Este é o valor que a indústria cita e não uma medida verificada aqui, pelo que se escreve como aproximado. Aplicado ao fator de conversão da fatura portuguesa, de cerca de 11,2 kWh por m³, dá aritmética simples: 600 × 11,2 = 6 720 kWh por metro cúbico de líquido. Esse resultado é uma conta feita sobre dois valores aproximados, não uma leitura de contador, e serve para dar escala, não para faturar.
Converter uma tonelada de GNL em metros cúbicos de gás pede um passo a mais, e é aqui que esta página se recusa a imprimir um número único. A passagem de massa para volume exige a densidade do GNL descarregado, que depende da composição daquele carregamento concreto e é declarada carga a carga. Sem essa densidade, qualquer tonelada convertida em m³ é uma estimativa disfarçada de facto. A cadeia correta é toneladas, depois metros cúbicos de líquido pela densidade do carregamento, depois metros cúbicos de gás pela razão de expansão, e só então kWh pelo poder calorífico do mês.
Como o GNL entra em Portugal
Em Portugal o GNL entra por Sines, e entra quase todo por ali. Segundo a REN, em 2024 98% do abastecimento do sistema nacional entrou pelo terminal de gás natural liquefeito de Sines e 2% pela interligação com Espanha. As duas portas não têm peso comparável: uma transporta praticamente tudo o que o país consome.
O terminal é operado pela REN Atlântico, na zona industrial de Sines, na costa atlântica, cerca de 120 km a sul de Lisboa. Recebe os navios, armazena o líquido em tanques e regaseifica-o antes de o entregar à Rede Nacional de Transporte de Gás Natural, que tem 1 375 km em dois eixos, de Sines a Valença do Minho e de Campo Maior até junto à Figueira da Foz, sob concessão da REN até 2046. Daí segue para as redes de distribuição regionais e, por fim, para o contador de cada casa.
GNL, GNC, metano e GPL
| Forma | Estado | Como se move | Unidade habitual |
|---|---|---|---|
| Gás natural em conduta | Gasoso, baixa pressão junto ao cliente | Rede de transporte e distribuição | m³ medidos, faturados em kWh |
| GNL | Líquido, cerca de 162 graus negativos | Navio metaneiro e camião cisterna | Toneladas e m³ de líquido |
| GNC | Gasoso, comprimido | Garrafas e depósitos de veículo | Quilogramas |
| GPL | Líquido sob pressão, à temperatura ambiente | Botija, depósito e camião | Quilogramas |
Da tabela sai a resposta a uma confusão frequente. GNL e metano não são coisas diferentes: o GNL é metano, o mesmo da conduta, apenas noutro estado. O GNC é o mesmo gás comprimido e não liquefeito, e é o que abastece veículos. O GPL é outra molécula, propano ou butano, e é o único da lista que não é gás natural. Em espanhol o GNL aparece como gas natural licuado e em inglês como liquefied natural gas, com as mesmas propriedades e outra sigla.
O que o GNL muda para quem paga a fatura
Para quem paga a fatura, o GNL não muda praticamente nada, e esse é o ponto que mais surpreende. O cliente doméstico não compra GNL: compra energia em kWh, obtida do volume medido no contador multiplicado pelo poder calorífico superior do mês, entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n), e pelo fator de correção de volume do distribuidor. Num exemplo ilustrativo, 84 m³ × 11,2 = 940,8 kWh. Uma caldeira de condensação ou um esquentador a gás natural queimam exatamente o mesmo metano, tenha ele chegado por navio ou por interligação.
O que a origem em GNL afeta é o preço grossista e a segurança de abastecimento, não a combustão. As restantes obrigações também não mudam: o escalão continua a ser atribuído pelo consumo anual em m³, o IVA continua a ser de 6% sobre o termo fixo da tarifa de acesso às redes em baixa pressão até 10 000 m³/ano e de 23% sobre o resto, e a inspeção periódica continua a ser aos 10 anos e depois de 5 em 5 numa habitação. O erro a evitar é tratar toneladas de GNL e metros cúbicos de gás como se fossem a mesma grandeza. São unidades distintas, e a página termina onde a fatura termina, em kWh.