Portugal não tem jazidas, tem um terminal

Portugal não tem jazidas de gás natural em exploração e não produz o gás que consome: em 2024, 98% do abastecimento do sistema entrou pelo terminal de GNL de Sines, por via marítima, e 2% pela interligação com Espanha, em Campo Maior. A resposta à pergunta sobre a origem do gás natural em Portugal é, portanto, um terminal e um gasoduto de fronteira, não um campo de produção nacional.

Diagrama: Portugal não tem jazidas, tem um terminal

As duas portas de entrada existem, mas não são comparáveis. Uma carrega praticamente todo o abastecimento e a outra é uma ligação de sistema, o que muda por completo a leitura de qualquer mapa que as desenhe com a mesma espessura.

As duas portas de entrada, e o peso real de cada uma

As duas portas de entrada do gás natural em Portugal repartiram o abastecimento de 2024 de forma muito desigual, segundo a REN, operadora do sistema de transporte.

Porta de entradaViaLocalizaçãoPeso em 2024
Terminal de GNL de SinesMarítima, GNL regaseificadoZona industrial de Sines, cerca de 120 km a sul de Lisboa98%
Interligação com EspanhaTerrestre, gasodutoCampo Maior2%

Um mapa que apresente Sines e Campo Maior como duas entradas equivalentes está a induzir em erro. Em 2024 a proporção foi de 98 para 2, o que faz do terminal de Sines a origem prática de quase todo o gás que chega às habitações portuguesas.

O que acontece no terminal de Sines

No terminal de Sines, operado pela REN Atlântico na zona industrial de Sines, cerca de 120 km a sul de Lisboa, os navios metaneiros descarregam gás natural liquefeito, que é armazenado, regaseificado e injetado na rede de transporte em alta pressão. O gás natural liquefeito é o mesmo gás em estado líquido, transportado a temperatura muito baixa para ocupar menos volume: a indústria trabalha com uma relação de cerca de 600 para 1 entre o volume de gás e o volume de líquido que lhe dá origem, valor que este texto atribui à prática do setor e não a uma fonte primária consultada.

É essa compressão de volume que torna a importação por mar viável e que explica por que motivo um país sem produção própria e sem grandes interligações terrestres consegue abastecer-se com regularidade a partir de um único terminal.

A interligação com Espanha, em Campo Maior

A interligação com Espanha entra em Campo Maior e alimenta o eixo este-oeste da rede de transporte, que segue até às proximidades da Figueira da Foz. Em 2024 essa via representou 2% do abastecimento, o que a coloca no papel de ligação ao sistema ibérico e de alternativa de segurança, não no de fornecedor principal. O outro eixo da rede, sul-norte, parte de Sines e sobe até Valença do Minho. Os dois eixos somam 1 375 km de rede de transporte, concessionada à REN até 2046.

Países fornecedores: o que esta página não afirma

A pergunta sobre países fornecedores de gás natural a Portugal não tem aqui resposta numérica, e isso é deliberado. A origem das cargas que descarregam em Sines muda de mês para mês, com os navios contratados por cada operador, e nenhuma repartição por país foi verificada para este texto. Publicar uma lista de percentagens por país seria dar aparência de facto a um número que envelhece em semanas.

O que está documentado e é estável é a repartição por porta de entrada, 98% e 2% em 2024, e o facto de não existir produção nacional em exploração comercial. Quem precisar da repartição por origem deve procurá-la nas publicações periódicas da REN e da ERSE, com a data ao lado, e não numa página de referência sem data.

Do terminal ao contador

Do terminal ao contador, o gás percorre dois níveis de infraestrutura. Primeiro a rede de transporte, em alta pressão, com 1 375 km nos dois eixos já descritos. Depois as redes de distribuição, em média e baixa pressão, operadas por distribuidores regionais atribuídos pela morada, como a Lisboagás, a Setgás, a Beiragás ou a Portgás, que são quem entrega o gás à porta e opera o contador. A cobertura de cada área está descrita na página sobre onde chega a rede de gás natural.

Só no fim desta cadeia entra a comercialização, que é a venda ao cliente final e a emissão da fatura. É por isso que o distribuidor da rua e o comercializador da fatura são empresas diferentes, distinção tratada na página sobre quem vende gás natural em Portugal.

O erro comum: pensar que a origem muda o gás no contador

O erro comum sobre a origem é supor que o país de proveniência da carga se nota em casa. Não se nota como produto diferente. O gás entregue na rede nacional tem um poder calorífico superior que se situa entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n), com mediana à volta de 11,9, e o valor mensal usado na faturação é a média aritmética dos valores diários publicados pelo operador da rede de transporte. A variação entre cargas aparece nesse número, não numa diferença perceptível de chama ou de rendimento.

Um segundo engano é relacionar a origem com o cheiro. O gás que circula na rede não tem odor próprio detetável, e o cheiro que se reconhece numa fuga é acrescentado de propósito, assunto tratado na página sobre se o gás natural tem cheiro. Um cheiro a gás em casa é sempre motivo para contactar a linha de emergência do distribuidor da área, independentemente de onde o gás foi produzido.

A unidade em que a origem chega ao consumidor

A origem do gás chega ao consumidor convertida em quilowatt-hora, depois de o contador ter medido metros cúbicos. A multiplicação usa o poder calorífico superior do período e o fator de correção de volume do distribuidor, 0,947944 ou 0,961288, e dá um fator efetivo de cerca de 11,2 kWh/m³, entre 11,19 e 11,54 nos extremos. Um exemplo aritmético: 84 m³ dão 940,8 kWh a 11,2 kWh/m³.

É nesse número, e não no porto de embarque, que a origem se torna visível na fatura. O sistema completo está descrito na página sobre o gás natural em Portugal e a decomposição do que se paga na página sobre quanto custa o gás natural em Portugal.

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