O fator de conversão que aparece na fatura

O fator de conversão da fatura de gás é o número, próximo de 11,2 kWh/m³, pelo qual o volume medido no contador é multiplicado para dar a energia faturada. Não é uma constante: resulta de PCS × Fcv, o poder calorífico superior do gás daquele mês vezes o fator de correção de volume do distribuidor, e por isso muda de mês para mês e de rede para rede.

Diagrama: O fator de conversão que aparece na fatura

O fator de conversão é a única linha da fatura que traz física para dentro da aritmética. Todas as outras linhas são preços, impostos e quantidades; esta traduz um volume de gás em energia, e essa tradução depende do que estava no gasoduto e das condições em que o contador o contou.

Porque é que o fator não é 11 exato

O fator não é 11 exato porque é o produto de duas grandezas variáveis, e nenhuma delas é redonda.

  • PCS, o poder calorífico superior, mede a energia libertada por metro cúbico de gás em condições normais, kWh/m³(n). No gás distribuído em Portugal situa-se entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n), com mediana próxima de 11,9. O valor mensal é a média aritmética dos valores diários publicados pelo operador da rede de transporte, o que significa que o número de janeiro e o de julho não são o mesmo.
  • Fcv, o fator de correção de volume, corrige o volume contado para as condições de referência. É o produto de uma correção de temperatura por uma correção de pressão, Fcv = Fct × Fcp, e o seu valor é publicado por distribuidor.

O contador doméstico conta o volume que passa nas condições reais em que o gás lhe chega, e não em condições normalizadas. Um metro cúbico mais frio contém mais moléculas do que um metro cúbico mais quente; um metro cúbico a pressão ligeiramente superior contém mais do que um a pressão inferior. A pressão de serviço da rede e a altitude do ponto de consumo entram nessa correção, e é essa a razão de o Fcv não ser 1 e de diferir consoante a zona servida.

O Fcv por distribuidor

O Fcv por distribuidor toma dois valores publicados em Portugal, repartidos pelas redes de distribuição.

FcvDistribuidores
0,947944Lisboagás, Setgás, Lusitaniagás, Medigás, Paxgás, Dianagás, Tagusgás
0,961288Duriensegás, Sonorgás, Beiragás, Portgás

Combinando os dois valores de Fcv com os extremos do PCS, obtém-se a banda em que qualquer fator de conversão português tem de cair: 11,8 × 0,947944 = 11,19 e 12,0 × 0,961288 = 11,54. Um fator fora do intervalo 11,19 a 11,54 não descreve gás natural da rede portuguesa, e é sinal de que o número foi tirado de outro país ou de outro combustível.

Onde encontrar o seu fator exato

Para encontrar o seu fator exato, procure-o na própria fatura, no bloco onde o consumo em m³ é convertido em kWh. Aparece normalmente numa linha própria, expressa em kWh/m³, imediatamente antes ou depois do consumo do período. As fórmulas seguem esta ordem.

  1. Confirme o período faturado, porque o fator vale para esse período e não para outro.
  2. Leia o fator em kWh/m³ e verifique se cai entre 11,19 e 11,54.
  3. Multiplique o consumo em m³ por esse fator e compare com a energia faturada.

Se a fatura discriminar separadamente o PCS e o Fcv em vez do produto, multiplique-os antes de usar. Um exemplo com o valor típico: 84 m³ × 11,2 = 940,8 kWh, e este exemplo é ilustrativo, não é a leitura de uma fatura concreta. A operação inversa e as restantes unidades estão em Conversão de unidades de gás natural, e o motivo de a faturação usar o poder calorífico superior está em Poder calorífico inferior e superior.

O índice de Wobbe não é o fator de conversão

O índice de Wobbe aparece frequentemente ao lado do fator de conversão e serve outra função. Define-se como o poder calorífico superior dividido pela raiz quadrada da densidade relativa do gás, e mede a energia que um queimador recebe através de um orifício a uma dada pressão. Governa a intermutabilidade dos gases, ou seja se um aparelho regulado para um gás funciona com outro sem alteração, e não entra em nenhuma linha da fatura. Dois gases com índices de Wobbe próximos queimam de forma equivalente no mesmo bico; dois gases com o mesmo índice de Wobbe podem ainda assim ser faturados com fatores de conversão diferentes.

O erro mais comum: confundir o Fcv com o fator

O erro mais comum é tomar o Fcv, 0,947944 ou 0,961288, pelo fator de conversão e multiplicar o volume só por ele. O resultado é um número quase igual ao volume de partida, expresso como se fosse energia, e cerca de 12 vezes menor do que a energia real. O Fcv sozinho não converte nada: é apenas a correção que ajusta o volume contado às condições de referência, e só depois de multiplicado pelo PCS produz um fator em kWh/m³.

Uma variação do mesmo engano é dividir pelo Fcv em vez de multiplicar, na convicção de que a correção reduz sempre o valor. Os dois valores publicados são inferiores a 1, o que significa que a correção reduz o volume; mas a energia final sobe, porque o PCS que a acompanha ronda 11,9.

O terceiro erro é reutilizar o fator. Uma fatura antiga, a fatura de um familiar noutro concelho ou uma tabela encontrada em linha descrevem outro mês, outra rede ou outro país. Entre 11,19 e 11,54 há cerca de 3% de diferença sobre o mesmo volume, e num consumo anual do escalão 4, que vai de 1 001 a 10 000 m³, essa percentagem já se mede em centenas de kWh.

O fator de conversão é expresso em kWh/m³, e é essa a unidade que fecha esta página. Não é adimensional, não é uma percentagem e não é um desconto: é a quantidade de energia contida em cada metro cúbico corrigido de gás natural, naquele mês, naquela rede.

Continue a ler