O gás canalizado é butano ou propano?
O gás canalizado em Portugal é, na grande maioria dos casos, gás natural, ou seja metano, e não butano nem propano. Quando a rede canalizada é mesmo de GPL, o gás é propano e não butano, porque o butano deixa de vaporizar a temperaturas próximas de zero e uma rede com depósito exterior deixaria de dar gás no primeiro dia frio.
Como saber qual gás chega a esta casa
Saber qual gás chega a esta casa faz-se por quatro verificações, todas com resposta escrita e nenhuma dependente da chama.
- Ler o contrato e a fatura: um fornecimento de gás natural é faturado em kWh a partir de metros cúbicos medidos no contador, ao fator de cerca de 11,2 kWh/m³, e um fornecimento de propano a granel é faturado em quilogramas ou em litros de depósito.
- Ler a placa de características do aparelho: fogões, esquentadores e caldeiras trazem gravada a família de gás para que foram regulados, com indicações como GN, G20, propano ou G31.
- Procurar a origem no edifício: um depósito enterrado, um parque exterior de garrafas ou uma central de GPL no logradouro significam propano canalizado, sem rede pública.
- Perguntar à concessionária da área, que é quem detém a rede da rua e sabe se ela existe e o que transporta.
O erro mais frequente é tratar a palavra canalizado como sinónimo de gás natural e comprar ou converter um aparelho com base nisso. Canalizado descreve como o gás chega, por tubo em vez de garrafa, e não diz nada sobre a molécula que vem dentro do tubo. A página sobre como funciona o gás canalizado percorre o mesmo trajeto do lado da rede, e a página sobre o que é o gás natural descreve a substância que a rede pública transporta.
Porque é propano e nunca butano numa rede canalizada
Numa rede canalizada o gás tem de vaporizar sozinho dentro do depósito, à temperatura que estiver lá fora, e é aí que o butano falha. O butano deixa de produzir pressão suficiente perto dos zero graus, pelo que só serve em garrafa e dentro de casa, tipicamente para um fogão. O propano vaporiza com folga a temperaturas negativas, o que o torna o único dos dois utilizável em depósito exterior, em parque de garrafas ou em rede de edifício. Daí a regra simples: butano em botija dentro de casa, propano quando o gás vem de fora por tubo.
As três hipóteses, lado a lado
| Gás natural canalizado | Propano canalizado | Butano em botija | |
|---|---|---|---|
| Molécula | Metano | Propano | Butano |
| Origem | Rede pública da concessionária | Depósito ou central de garrafas do edifício | Garrafa individual |
| Unidade em que é vendido | m³ medidos, faturados em kWh | Quilogramas | Quilogramas |
| Referência calorífica | PCS de 11,8 a 12,0 kWh/m³(n) | PCI de 12,93 kWh/kg | PCI de 12,78 kWh/kg |
| Densidade face ao ar | Cerca de 0,6, sobe | Superior a 1, desce | Superior a 1, desce |
| Funciona ao frio | Sim | Sim | Não, em depósito exterior |
| Reserva a acabar | Não existe | Sim, no depósito | Sim, na garrafa |
As linhas de valores não são comparáveis entre colunas sem cuidado: o número do gás natural é um poder calorífico superior por metro cúbico normalizado e os do propano e do butano são poderes caloríficos inferiores por quilograma. São grandezas diferentes em unidades diferentes, e a comparação útil faz-se depois, em euros por kWh útil. O poder calorífico do gás natural e do propano tem página própria neste manual, com essa conversão feita.
O que muda no fogão, no esquentador e na caldeira
No fogão, no esquentador e na caldeira muda o injetor e muda a regulação, não o aparelho inteiro. Cada família de gás precisa de um orifício de calibre próprio, porque a mesma potência exige caudais diferentes conforme a densidade e o poder calorífico do gás. Alterar um esquentador de gás natural para butano, ou o inverso, é trocar o conjunto de injetores pelo kit do fabricante e voltar a regular a pressão e a chama, trabalho de técnico habilitado e não de utilizador. Um aparelho a queimar o gás errado dá chama amarela, fuligem e monóxido de carbono, ou simplesmente não liga.
Modelos correntes de caldeira mural, como as de 24 kW que se instalam para aquecimento central e águas quentes, são vendidos em versão para gás natural e em versão para propano, ou com kit de conversão de origem. A potência indicada na placa, esses 24 kW, é a mesma nas duas versões; o que muda é o que a caldeira precisa de receber para a atingir.
Preço, inspeção e certificado
O preço do propano canalizado não tem tarifa nacional publicada que se possa citar aqui. É vendido ao quilograma por fornecedores de GPL a granel, com contrato por edifício, e varia com o fornecedor, a região e a data, ao passo que o gás natural tem tarifas reguladas e ofertas de mercado livre. Por isso esta página não imprime um valor em euros e não recomenda nenhum fornecedor: qualquer número copiado hoje engana amanhã. A comparação que se sustenta é a do custo por kWh útil, contando o termo fixo e o rendimento do aparelho, e não a do preço por quilograma contra o preço por metro cúbico.
A obrigação de inspeção não distingue as duas hipóteses. O Decreto-Lei n.º 97/2017, alterado pela Lei n.º 59/2018, sujeita as instalações de gás a inspeção periódica por entidade reconhecida pela DGEG, a cargo do proprietário ou utilizador, com a primeira aos 10 anos numa habitação e repetição de 5 em 5 anos, e de 3 em 3 anos em edifícios de utilização pública. O certificado que daí resulta é português; documentos de revisión de gas butano em PDF pertencem ao regime espanhol e não substituem a inspeção nacional. No fim, a unidade em que cada um destes gases se mede não coincide: o gás natural fecha em m³ convertidos a kWh, o propano e o butano fecham em quilogramas.