O contador mede volume, não energia

O contador de gás natural mede volume, em metros cúbicos, e não mede energia. Regista os m³ que atravessaram a conduta desde que foi instalado, e é a fatura que depois transforma esse volume em kWh, multiplicando pelo fator de conversão do período, tipicamente perto de 11,2 kWh/m³. Nenhum contador doméstico mostra kWh no visor.

Diagrama: O contador mede volume, não energia

Como se lê o contador e que dígitos contam

Para ler o contador, anota-se o número inteiro de m³ e ignora-se tudo o que vem depois da vírgula. Os dígitos de casas decimais aparecem destacados, habitualmente sobre fundo vermelho ou dentro de um mostrador separado, e existem para aferição, não para faturação. Comunicá-los junto com os inteiros inflaciona a leitura por um fator de dez ou de cem, e é o erro isolado mais frequente na comunicação de leituras.

O contador é um totalizador que só avança. O valor no visor não é o consumo do mês, é o índice acumulado desde a instalação, e o consumo obtém-se sempre por subtração de duas leituras. De 10 232 m³ para 10 316 m³ vão 84 m³, que é o exemplo usado neste manual em todas as contas. Esses 84 m³ valem 84 × 11,2 = 940,8 kWh de energia faturada.

  • Registar o número inteiro de m³, da esquerda para a direita, incluindo os zeros à esquerda.
  • Ignorar os dígitos vermelhos, os dígitos após vírgula e qualquer mostrador auxiliar.
  • Anotar a data da leitura, porque o ciclo de faturação conta dias.
  • Comunicar a leitura dentro da janela indicada pelo comercializador, que é curta.

Onde está o contador e o que o rodeia

O contador está, na maioria dos edifícios, fora da habitação: numa caixa na fachada, num armário técnico do piso ou numa zona comum ventilada. Um contador interno, dentro da fração, existe sobretudo em instalações antigas. A cor da caixa varia e não identifica nada; o que identifica o aparelho é a chapa de características e o número de série impresso nela, que deve coincidir com o número indicado na fatura.

Junto ao contador estão normalmente o regulador de pressão e a torneira de corte da instalação. Nenhuma dessas peças é do domínio do ocupante: instalar, abrir, selar, substituir ou deslocar um contador são operações do distribuidor da zona, e uma intervenção por iniciativa própria compromete a selagem e a inspeção periódica. As condições e os encargos de uma mudança de local variam por distribuidor e não existe um valor único publicado, pelo que este manual não indica preço.

Contador digital, inteligente e industrial

Um contador digital ou inteligente muda a forma como a leitura chega ao comercializador, não muda a grandeza medida. O aparelho de membrana continua a contabilizar volume; a eletrónica acrescenta um visor numérico, memória de índices e, na telecontagem, comunicação remota, o que reduz as leituras estimadas por eliminar a dependência do acesso físico ao aparelho.

Em instalações industriais e em grandes consumos aparece uma diferença real: o corretor de volume. Esse equipamento mede também a temperatura e a pressão do gás e corrige o volume para condições normalizadas no próprio local, em vez de o fazer na fatura através do fator Fcv. O resultado continua a ser expresso em m³, mas já em m³(n), e é essa distinção, e não o formato do visor, que separa um contador industrial de um doméstico.

Leitura real e leitura estimada

Uma leitura real é o índice lido no aparelho; uma leitura estimada é um índice calculado pelo comercializador a partir do histórico de consumo, usado quando não há leitura comunicada nem acesso ao contador. A fatura indica sempre qual das duas foi usada, geralmente com a menção estimada ao lado do valor.

Uma estimativa alta produz uma fatura alta, mas não produz uma perda. Como o consumo é sempre a diferença entre dois índices, a leitura real seguinte parte do valor verdadeiro do contador e o excesso cobrado é abatido no acerto: o volume total faturado ao longo do tempo iguala o volume que o contador registou. O contador não se engana, a estimativa engana-se, e corrige-se sozinha assim que entra um índice real.

Há, ainda assim, um efeito que não se corrige sozinho. O escalão de consumo é atribuído a partir dos m³ do ano anterior, em quatro patamares, 0 a 220, 221 a 500, 501 a 1 000 e 1 001 a 10 000 m³/ano, pelo que uma sequência longa de estimativas acima do consumo real pode colocar a instalação num escalão que não lhe corresponde. Comunicar uma leitura real é a forma direta de evitar isso.

Do índice do contador ao valor pago

Do índice do contador ao valor pago há três passos e duas mudanças de unidade. Primeiro a subtração dos dois índices, que dá m³. Depois a multiplicação pelo fator de conversão do período, que dá kWh. Só então a aplicação dos preços, dos impostos e do IVA, que dá euros, com 6% sobre o termo fixo de acesso às redes em baixa pressão até 10 000 m³/ano e 23% sobre todo o resto.

PassoOperaçãoUnidade de saída
LeituraÍndice atual menos índice anteriorm³
ConversãoVolume multiplicado por PCS e por FcvkWh
FaturaçãoEnergia, termos fixos, impostos e IVA€

O fator não é um número fixo. Resulta do poder calorífico superior do gás entregue, entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n) segundo a Portgás, multiplicado por um fator de correção de volume publicado por distribuidor, 0,947944 para a Lisboagás, Setgás, Lusitaniagás, Medigás, Paxgás, Dianagás e Tagusgás, e 0,961288 para a Duriensegás, Sonorgás, Beiragás e Portgás. O produto cai entre 11,19 e 11,54, e é por isso que este manual usa 11,2 como valor típico e nunca como constante. A página Ler uma fatura de gás natural percorre esse cálculo campo a campo, e a página O que é o gás natural explica porque é o poder calorífico que faz a ponte.

A unidade em que este assunto termina é o metro cúbico. O contador conta m³, a leitura comunica-se em m³, o escalão é definido em m³/ano, e tudo o que aparece em kWh ou em euros já é aritmética feita depois, a partir desse número.

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