O gás natural em Portugal
O gás natural em Portugal é um sistema inteiramente importado: em 2024, 98% do abastecimento do sistema entrou pelo terminal de GNL de Sines e 2% pela interligação com Espanha, atravessou 1 375 km de rede de transporte em alta pressão e chegou ao contador através de uma rede de distribuição que o cliente não escolhe. Quem emite a fatura é uma empresa diferente do operador dessa rede, e no segundo trimestre de 2026 a ERSE contou 14 comercializadores com ofertas de gás natural no mercado livre.
Estas quatro peças, entrada, transporte, distribuição e comercialização, explicam quase tudo o que aparece numa fatura portuguesa, incluindo a razão pela qual o contador mede metros cúbicos e a fatura cobra quilowatt-hora.
Por onde entra o gás natural que Portugal consome
O gás natural que Portugal consome entra por duas portas, e elas não têm o mesmo peso. Não existe produção nacional em exploração comercial, pelo que a importação é a totalidade do abastecimento. O terminal de GNL de Sines, operado pela REN Atlântico, na zona industrial de Sines a cerca de 120 km a sul de Lisboa, recebe navios metaneiros, regaseifica a carga e injeta o gás na rede de transporte. A segunda porta é terrestre, em Campo Maior, onde a rede portuguesa liga à rede espanhola.
A repartição de 2024 mostra que não se trata de duas vias equivalentes. Uma delas carrega praticamente todo o abastecimento.
| Porta de entrada | Tipo | Peso no abastecimento, 2024 |
|---|---|---|
| Terminal de GNL de Sines | Marítima, GNL regaseificado | 98% |
| Interligação com Espanha, em Campo Maior | Terrestre, gasoduto | 2% |
A origem geográfica das cargas que descarregam em Sines varia de mês para mês, com os navios que atracam. Esta página não publica uma repartição por países fornecedores porque nenhuma foi verificada para este texto; o que está documentado, pela REN, é a repartição por porta de entrada acima.
Da rede de transporte ao contador
Da rede de transporte até ao contador existem dois níveis de infraestrutura, com pressões e operadores diferentes. A Rede Nacional de Transporte de Gás Natural tem 1 375 km e assenta em dois eixos: um eixo sul-norte, do terminal de Sines até Valença do Minho, e um eixo este-oeste, de Campo Maior até às proximidades da Figueira da Foz. A REN detém a concessão desta rede até 2046.
Abaixo do transporte estão as redes de distribuição, em média e baixa pressão, que são as que percorrem as ruas e terminam no contador. Cada distribuidor opera uma área geográfica própria e é atribuído pela morada, não contratado pelo cliente. Entre os distribuidores com fator de correção de volume publicado contam-se a Lisboagás, a Setgás, a Lusitaniagás, a Medigás, a Paxgás, a Dianagás, a Tagusgás, a Duriensegás, a Sonorgás, a Beiragás e a Portgás. A página sobre onde chega a rede de gás natural detalha a cobertura e o modo de confirmar se uma rua tem conduta.
Quem vende, quem distribui e quem regula
Quem vende gás natural, quem o distribui e quem regula o setor são entidades distintas, e a confusão entre as 3 é a causa mais frequente de chamadas telefónicas mal dirigidas. O quadro seguinte separa os papéis.
| Camada | Quem opera | O cliente pode escolher |
|---|---|---|
| Transporte em alta pressão | REN, concessão até 2046 | Não |
| Distribuição em média e baixa pressão | O distribuidor regional da área da morada | Não |
| Comercialização | 14 comercializadores com oferta de gás no mercado livre, segundo a ERSE no 2.º trimestre de 2026 | Sim |
| Regulação | ERSE, Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos | Não se aplica |
A ERSE contabilizou ainda 8 comercializadores com ofertas duais, de eletricidade e gás em conjunto. A lista de nomes muda ao longo do tempo e por isso não é reproduzida aqui como se fosse permanente. Empresas como a Galp e a Goldenergy operam no mercado livre, o que é um facto e não uma indicação de escolha: este sítio não recomenda nem ordena comercializadores, e não representa nenhuma empresa nem nenhuma associação do setor.
O que o consumidor paga
O consumidor paga quatro parcelas somadas na mesma fatura: um termo fixo, cobrado por dia independentemente do consumo, um termo de energia em euros por quilowatt-hora, as tarifas de acesso às redes fixadas pela ERSE e os impostos. As tarifas de acesso são iguais para todos os comercializadores, porque remuneram as redes e não a venda; o que distingue realmente duas ofertas é o termo fixo e o termo de energia.
O IVA aplica-se a 6% sobre a componente fixa da tarifa de acesso às redes, no fornecimento em baixa pressão até 10 000 m³/ano, e a 23% sobre tudo o resto da fatura, incluindo o Imposto Especial de Consumo e a Taxa de Ocupação do Subsolo. O escalão de consumo, atribuído em metros cúbicos por ano, determina a tarifa de acesso aplicável. A página sobre quanto custa o gás natural em Portugal decompõe cada parcela.
O contador mede m³, a fatura cobra kWh
O contador mede volume em metros cúbicos e a fatura cobra energia em quilowatt-hora, e a passagem de um para o outro é uma multiplicação: energia em kWh igual a volume em m³ multiplicado pelo poder calorífico superior e pelo fator de correção de volume. Em Portugal o resultado ronda 11,2 kWh/m³. Um consumo de 84 m³ dá, a esse fator, 940,8 kWh, valor usado como exemplo aritmético e não como leitura real.
O fator não é constante. O PCS do gás entregue na rede nacional situa-se entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n), com mediana à volta de 11,9, e o fator de correção de volume é 0,947944 para uns distribuidores e 0,961288 para outros, o que coloca o fator efetivo entre cerca de 11,19 e 11,54. O valor correto para uma fatura concreta é o que essa fatura imprime.
O erro que se repete: telefonar à empresa errada
O erro mais comum em Portugal é tratar o comercializador e o distribuidor como a mesma empresa. Uma mudança de tarifário, uma segunda via da fatura ou uma reclamação de faturação resolvem-se com o comercializador. Um cheiro a gás, um contador avariado, uma leitura por confirmar ou um pedido de ramal resolvem-se com o distribuidor da área, que é o mesmo antes e depois de qualquer mudança de fornecedor. Mudar de comercializador não muda a conduta, o contador, o distribuidor nem a tarifa de acesso.
O que esta página não afirma
Há valores que variam e que por isso não aparecem aqui como números fixos: a capacidade de armazenamento do sistema, a repartição das importações por país de origem, o preço do kWh em qualquer tarifário e o custo de uma ligação nova. Todos dependem do ano, do lote de gás, do contrato ou do orçamento do distribuidor. Uma desambiguação final: água com gás não tem relação com gás natural, o gás dissolvido nessa água é dióxido de carbono.
A unidade em que este sistema termina é o quilowatt-hora, mas a grandeza que o contador realmente mede é o metro cúbico, e é entre essas duas unidades que quase todos os enganos acontecem. Quem quiser dimensionar equipamento a partir daqui encontra o método na página sobre dimensionar uma caldeira a gás natural.