Como se formou o gás natural

A origem do gás natural consumido em Portugal é inteiramente estrangeira: não há produção comercial no país e, segundo a REN, em 2024 entraram 98% do abastecimento do sistema pelo terminal de GNL de Sines e 2% pela interligação com Espanha. A origem geológica é outra coisa e é anterior a tudo isto: matéria orgânica soterrada, aquecida e comprimida durante milhões de anos.

Diagrama: Como se formou o gás natural

Como se forma o gás natural no subsolo

Forma-se a partir de restos de organismos microscópicos que se depositam no fundo de mares e lagos e ficam cobertos por sedimentos antes de apodrecerem por completo. Enterrada, essa matéria transforma-se num sólido orgânico disperso na rocha, o querogénio. À medida que novos sedimentos se acumulam por cima, a rocha desce, aquece e é comprimida, e o querogénio começa a partir-se em moléculas cada vez mais pequenas.

Existe uma ordem nessa transformação. Numa primeira faixa de profundidade e temperatura, a rocha gera sobretudo petróleo. Mais fundo e mais quente, as cadeias longas continuam a partir-se e o produto passa a ser gás, dominado por metano. É por isso que muitas jazidas dão os dois, e que o gás aparece com frequência associado ao petróleo. Existe também gás formado sem calor, por ação de bactérias em sedimentos recentes, e é esse o processo que o biometano industrial reproduz num digestor, em semanas em vez de milhões de anos.

Onde o gás fica preso: os tipos de jazida

O gás fica preso onde não consegue continuar a subir. Sendo mais leve do que a água e do que a rocha, migra para cima até encontrar uma barreira impermeável, e acumula-se por baixo dela. Daí saem três configurações que a indústria distingue.

  • Jazida convencional: rocha porosa e permeável, coberta por uma rocha selante e fechada por uma estrutura geológica que impede a fuga lateral.
  • Jazida associada: o gás coexiste com petróleo no mesmo reservatório, dissolvido nele ou numa camada acima.
  • Jazida não convencional: o gás fica retido na própria rocha que o gerou, como o xisto, com permeabilidade baixa demais para escoar sem estimulação artificial.

Nenhuma destas configurações produz gás em Portugal a nível comercial. Houve trabalhos de prospeção e exploração ao longo de décadas, em terra e no mar, sem que daí resultasse produção nacional que abastecesse a rede. O erro mais comum sobre este assunto nasce exatamente aqui: a palavra origem, quando aparece num contrato ou numa fatura portuguesa, não aponta para um poço, aponta para uma rota de importação.

Por onde entra o gás e por onde circula

Entra por duas portas de peso muito desigual. O terminal de gás natural liquefeito de Sines, operado pela REN Atlântico, na costa atlântica cerca de 120 km a sul de Lisboa, recebe navios metaneiros, armazena o líquido e regaseifica-o. A interligação terrestre com Espanha, no lado de Campo Maior, completa o sistema. Em 2024 a proporção entre as duas foi de 98% para 2%, o que significa que uma delas transporta praticamente tudo e a outra funciona como complemento e como alternativa. A página sobre gás natural liquefeito descreve o que acontece ao produto antes de chegar ali.

Depois de regaseificado, o gás segue pela Rede Nacional de Transporte de Gás Natural, com 1 375 km em alta pressão e dois eixos, de Sines a Valença do Minho e de Campo Maior até junto à Figueira da Foz, sob concessão da REN até 2046. A partir daí passa às redes de distribuição regionais, exploradas por empresas como a Lisboagás, a Setgás, a Lusitaniagás, a Beiragás, a Portgás ou a Sonorgás, e é nessa última etapa que chega ao contador de cada casa, no percurso descrito na página sobre como funciona o gás canalizado.

EtapaO que aconteceUnidade em que se conta
Formação geológicaQuerogénio aquece e parte-se em metanoMilhões de anos
JazidaO gás acumula sob uma rocha selanteVolume de reservatório
Liquefação e viagemArrefecimento e transporte em navio metaneiroToneladas de GNL
Terminal de SinesRegaseificação, 98% da entrada em 2024m³(n)
Rede de transporte1 375 km em alta pressão, dois eixosm³(n)
Contador da fraçãoMedição do consumo realm³
FaturaVolume multiplicado por PCS e por FcvkWh

O gás natural é renovável?

Não é renovável, e a pergunta tem uma resposta e não duas. O gás natural é um combustível fóssil formado em escalas de tempo geológicas, e o que se extrai num ano não se repõe em mil. Chamar-lhe limpo por comparação com o carvão diz respeito às emissões da combustão, não à origem, e são coisas distintas que a conversa pública mistura com frequência.

O que existe de renovável é o biometano, produzido por digestão anaeróbia de resíduos orgânicos, como efluentes agropecuários, lamas de estações de tratamento e a fração orgânica dos resíduos urbanos, e depois purificado até atingir qualidade de rede. Purificado, é metano, quimicamente indistinguível do fóssil, e pode ser injetado na mesma rede e queimado nos mesmos aparelhos sem qualquer alteração. A diferença entre os dois é toda de origem, e é a origem que decide o balanço ambiental, não a molécula.

O que a origem muda na fatura

Na fatura, a origem muda o preço grossista e não muda a conta. Um país que importa a totalidade do que consome está exposto ao mercado internacional, e é daí que vêm as variações de que os consumidores se queixam. Mas a mecânica da fatura é sempre a mesma: o contador mede metros cúbicos, e o comercializador converte-os em quilowatt-hora multiplicando pelo poder calorífico superior do mês, entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n), e pelo fator de correção de volume do distribuidor, 0,947944 num grupo de concessionárias e 0,961288 noutro. Num exemplo ilustrativo, 84 m³ × 11,2 = 940,8 kWh.

Quanto custa é matéria da página sobre o preço do gás natural em Portugal, e não se resolve com um número solto: coexistem tarifas reguladas e ofertas de mercado livre, onde a ERSE contou 14 comercializadores com ofertas de gás no segundo trimestre de 2026. Esta página não indica preços em euros nem recomenda fornecedores. Fica o encadeamento completo: matéria orgânica no subsolo há milhões de anos, navio até Sines, 1 375 km de rede, metros cúbicos no contador e, no fim da linha, kWh na fatura.

Continue a ler