O gás natural é renovável?

Não, o gás natural não é renovável: o volume que hoje passa no contador não se refaz em nenhuma escala de tempo humana. Formou-se durante milhões de anos a partir de matéria orgânica soterrada.

Diagrama: O gás natural é renovável?

É essa a razão pela qual a mesma conduta está a receber outros gases. O biometano e o hidrogénio verde renovam-se no sentido em que o gás natural não se renova, mas não são equivalentes entre si no ponto que interessa a quem tem uma fatura à frente: um metro cúbico de biometano entrega a mesma energia que um metro cúbico de gás natural, e um metro cúbico de hidrogénio entrega cerca de um terço.

Porque é que o gás natural não é renovável

O gás natural não é renovável porque o processo que o forma trabalha numa escala geológica e o consumo trabalha numa escala diária. A matéria orgânica que lhe deu origem ficou soterrada sob sedimentos, sob pressão e calor durante milhões de anos, até se converter em metano acumulado em rochas porosas. Em inglês a arrumação é a mesma: natural gas é nonrenewable, e renewable fica reservado às fontes que se repõem à velocidade a que são consumidas, como o vento ou o sol.

Liquefazer o gás não altera esta classificação. O liquefied natural gas, ou GNL, é o mesmo gás arrefecido até liquefazer, o que reduz o volume cerca de 600 vezes, número corrente da indústria e não uma medição feita aqui. Foi por aí que entrou 98% do abastecimento do sistema português em 2024, pelo terminal de Sines operado pela REN Atlântico, segundo a REN, contra 2% pela interligação com Espanha. Num terminal de liquefação muda o estado físico, não a origem.

Gás canalizado e gás natural não são a mesma coisa

Gás canalizado descreve a forma de entrega e gás natural descreve a substância entregue. Canalizado significa que o gás chega por conduta enterrada até um contador, sem garrafa, e nesse regime também circula gás de petróleo liquefeito. A conduta é infraestrutura neutra: transporta o que cumprir a especificação de qualidade da rede, e por isso a questão dos gases renováveis é uma questão de especificação, não de canos novos.

A Rede Nacional de Transporte de Gás Natural tem 1 375 km em dois eixos, de Sines até Valença do Minho e de Campo Maior até junto da Figueira da Foz, com a concessão da REN até 2046. As empresas de gás natural em Portugal repartem-se entre transporte, distribuição e comercialização. O que é o gás natural pertence a outra página; aqui basta que conduta e gás sejam separáveis.

Os gases renováveis que entram na mesma conduta

Os gases renováveis que a conduta pode receber são 2, e comportam-se de maneiras opostas no contador. O biometano ocupa o lugar do gás natural sem que o equipamento dê por isso, e o hidrogénio verde ocupa o mesmo espaço físico com muito menos energia lá dentro.

Gás na condutaDe onde vemMolécula principalEnergia por m³(n)O contador distingue?
Gás naturalReservatórios fósseis, entregue sobretudo como GNLMetano, CH4, cerca de 90% da misturaPCS de 11,8 a 12,0 kWhÉ a referência
BiometanoDigestão anaeróbia, seguida de purificaçãoMetano, CH4A mesma banda, 11,8 a 12,0 kWhNão
Hidrogénio verdeEletrólise da água com eletricidade renovávelHidrogénio, H2Cerca de um terço da do gás naturalSim, pelo volume necessário

A composição do gás natural varia com o lote entregue, e os cerca de 90% de metano são uma média nacional publicada para comparação, não uma medição da conduta de uma casa. O biometano é metano purificado até à especificação da rede; o hidrogénio verde é outra molécula, e é aí que a aritmética muda.

O que não muda na fatura quando o gás muda de origem

A fatura não muda de método quando muda a origem do gás: mede volume e converte-o em energia com um fator que depende do poder calorífico e da correção de temperatura e pressão. A conta é 84 m³ × 11,2 = 940,8 kWh, com 84 m³ como exemplo e não como consumo típico, e sobre metano de origem renovável dá exatamente o mesmo.

  • Fator de conversão: cerca de 11,2 kWh/m³, o PCS multiplicado pelo fator de correção de volume, 0,947944 na Lisboagás e na Lusitaniagás, 0,961288 na Beiragás e na Portgás. O valor real cai entre 11,19 e 11,54 e não é uma constante.
  • Poder calorífico: a faturação usa o poder calorífico superior, com mediana perto de 11,9 kWh/m³(n). O poder calorífico inferior do gás natural é mais baixo, por não contar o calor latente do vapor de água, e não é o que aparece na fatura.
  • Escalões de consumo: 0 a 220 m³/ano no escalão 1, 221 a 500 no 2, 501 a 1 000 no 3 e 1 001 a 10 000 no 4, atribuídos pelo consumo do ano anterior.
  • IVA: 6% sobre o termo fixo do acesso às redes em baixa pressão até 10 000 m³/ano, 23% sobre o resto.
  • Inspeção: a primeira inspeção periódica de uma habitação ocorre aos 10 anos e repete-se de 5 em 5 anos, e de 3 em 3 anos nos edifícios de uso público, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 97/2017, alterado pela Lei n.º 59/2018.

O preço do gás natural em Portugal não é um número único e esta página não imprime nenhum: depende do comercializador, do escalão, da tarifa e da data do contrato. No segundo trimestre de 2026 a ERSE contou 14 comercializadores com ofertas de gás natural no mercado livre e oito com ofertas duais. Uma caldeira de condensação a gás natural altera o consumo e não o método: recupera o calor latente do vapor de água dos gases de escape, e por isso o rendimento anunciado acima de 100% refere-se ao poder calorífico inferior, ficando abaixo de 100% contra o superior, que é o que a fatura usa.

O erro mais comum sobre gases renováveis

O erro mais comum é ler renovável como uma propriedade da molécula que chega ao contador. Não é. Um contrato de gás verde não muda os metros cúbicos medidos, nem o fator de conversão, nem os kWh faturados, porque o metano de origem renovável injetado na rede é fisicamente indistinguível do metano fóssil que já lá está.

O que muda é a contabilidade. A origem viaja em garantias emitidas no ponto de injeção e canceladas quando alguém reclama o consumo correspondente, tal como a eletricidade renovável é rastreada num sistema que não separa eletrões. O gás é medido no contador e a origem no registo: duas medições diferentes sobre a mesma quantidade.

A unidade em que esta pergunta se resolve

A unidade é o kWh. A renovabilidade responde à pergunta da origem e não altera um único termo da conversão de volume em energia, por isso comparar gases pela origem responde a uma pergunta e compará-los pelo metro cúbico responde a outra. Entre metano fóssil e biometano o metro cúbico é comparável e a origem é a única diferença. Entre metano e hidrogénio a origem é secundária e o metro cúbico deixa de ser comparável, porque a mesma unidade de volume transporta cerca de um terço da energia.

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