Gás natural e GPL não são o mesmo gás

Gás natural e GPL não são o mesmo gás: o gás natural é metano entregue por conduta, medido em metros cúbicos e faturado em quilowatt-hora a cerca de 11,2 kWh por m³, e o GPL é propano ou butano vendido ao quilograma, em botija ou em depósito. Entre os dois há cinco diferenças que interessam, e a última só se manifesta numa fuga.

Diagrama: Gás natural e GPL não são o mesmo gás

Diferença 1 e 2: a molécula e a forma de entrega

A molécula separa-os antes de tudo o resto. O gás natural é dominado pelo metano, com quantidades menores de etano, propano, azoto e dióxido de carbono, e a composição varia com o lote entregue, razão pela qual a REN a publica como média nacional e não como valor garantido. O GPL, gás de petróleo liquefeito, é propano ou butano, moléculas maiores e mais pesadas, obtidas na refinação do petróleo e no tratamento de gás.

A forma de entrega decorre da molécula. O metano só liquefaz a temperaturas criogénicas, à volta de 162 graus negativos, e por isso chega às casas no estado gasoso, por rede, sem qualquer reservatório na habitação. O propano e o butano liquefazem sob pressão moderada à temperatura ambiente, e por isso cabem numa botija. Existe propano canalizado, alimentado por um depósito do próprio edifício, e é a razão pela qual a palavra canalizado nunca prova que o gás seja natural: a página sobre como funciona o gás canalizado trata desse caso.

Diferença 3: a unidade de venda, e por que razão os preços não se comparam

A unidade de venda é a diferença que mais dinheiro custa a quem a ignora. O gás natural é medido em m³ e cobrado em kWh, com um termo fixo diário à parte, escalão atribuído pelo consumo do ano anterior e IVA de 6% sobre o termo fixo da tarifa de acesso às redes em baixa pressão até 10 000 m³/ano, 23% sobre o resto. O GPL é vendido ao quilograma, sem termo fixo de rede na botija, com o custo do depósito ou do aluguer da garrafa a entrar por outra via.

Comparar euros por quilograma com euros por metro cúbico não produz informação nenhuma. A única comparação que se sustenta é o custo por kWh útil, ou seja depois de dividir pelo rendimento do aparelho e depois de somar as parcelas fixas. Esta página não publica esse valor em euros porque não existe um preço nacional único nem para o GPL a granel nem para as ofertas de mercado livre, onde a ERSE contou 14 comercializadores com ofertas de gás no segundo trimestre de 2026 e nenhum deles é recomendado aqui.

Diferença 4: o poder calorífico, e a armadilha PCS contra PCI

O poder calorífico separa-os em duas grandezas com nomes parecidos. O poder calorífico superior, PCS, inclui o calor recuperado ao condensar o vapor de água dos gases de combustão; o poder calorífico inferior, PCI, não o inclui. Em Portugal, a faturação de gás natural usa o PCS, publicado mensalmente entre 11,8 e 12,0 kWh/m³(n), com mediana próxima de 11,9. Os valores correntes do propano e do butano, pelo contrário, circulam em PCI e por quilograma: 12,93 kWh/kg no propano e 12,78 kWh/kg no butano.

Daí saem duas conversões pedidas com frequência, feitas aqui à vista. Em quilocalorias, com um kWh = 859,845 kcal, um PCS de 11,9 kWh/m³(n) equivale a cerca de 10 232 kcal/m³(n). Em megajoules, com um kWh = 3,6 MJ, esses mesmos 11,9 kWh/m³(n) equivalem a cerca de 42,8 MJ/m³(n). Ambos os resultados são aritmética sobre o valor mediano e mudam com o PCS do mês. Usar um valor de PCI onde o contrato pede PCS, ou comparar 12,93 kWh/kg com 11,9 kWh/m³(n) como se fossem o mesmo tipo de número, é o erro mais comum desta comparação inteira.

Diferença 5: o que acontece numa fuga

Numa fuga os dois gases fazem o contrário um do outro. O gás natural tem densidade de cerca de 0,78 kg/m³ e densidade relativa ao ar de aproximadamente 0,6, valores que variam com o lote, e por ser mais leve sobe e acumula-se junto ao teto, dispersando-se com relativa facilidade se houver abertura em cima. O propano e o butano são mais pesados do que o ar, descem e acumulam-se junto ao chão, em caves, poços de elevador e cantos sem ventilação baixa, onde podem permanecer muito tempo.

A consequência prática é direta: a ventilação e a colocação de qualquer detetor têm de seguir o gás, alta para gás natural e baixa para GPL. A faixa de inflamabilidade do metano no ar vai de cerca de 4,4% a 16,4% em volume, com o gás natural citado correntemente entre 5% e 15%. Os dois gases são odorizados com compostos de enxofre e cheiram os dois a ovo podre, pelo que o cheiro não distingue um do outro. Distingue-os a altura a que se sente.

As cinco diferenças numa tabela

DiferençaGás naturalGPL: propano e butano
1. MoléculaMetanoPropano ou butano
2. EntregaConduta, sem reservatório em casaBotija, depósito ou rede local
3. Unidade de vendam³ medidos, faturados em kWhQuilogramas
4. Referência caloríficaPCS de 11,8 a 12,0 kWh/m³(n)PCI de 12,93 kWh/kg e 12,78 kWh/kg
5. Numa fugaSobe, densidade relativa cerca de 0,6Desce, mais pesado do que o ar

O que isto muda no equipamento

No equipamento isto muda os injetores e a regulação, não o modelo. Uma caldeira mural de 24 kW ou um esquentador saem de fábrica regulados para uma família de gás e só passam à outra com o kit do fabricante, instalado por técnico habilitado. Um esquentador a gás natural que não liga, ou que liga com chama amarela e fuligem, é muitas vezes um aparelho a receber o gás para que não foi regulado. A placa de características do aparelho indica a família correta, e a potência em kW mantém-se a mesma nas duas versões.

Quanto a documentos, o regime português assenta no Decreto-Lei n.º 97/2017, alterado pela Lei n.º 59/2018, com inspeção por entidade reconhecida pela DGEG, primeira aos 10 anos numa habitação e depois de 5 em 5 anos. Certificados emitidos ao abrigo da ANP pertencem ao regime brasileiro e não têm valor equivalente em Portugal. No fim, cada um destes gases fecha na sua própria unidade: o gás natural em kWh convertidos a partir de m³, o GPL em quilogramas.

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